Como se leva uma estrela para o céu?

"O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente." (Fernando Pessoa) Tal como o poeta, também eu finjo, imagino, invento e crio com as minhas palavras...

quinta-feira, abril 27

“Não existem coisas más, existem coisas menos boas.”

Era bom que pensássemos sempre assim…

terça-feira, abril 25

Insensível

Dizes que sou insensível. Fico a olhar para ti durante largos segundos, sem saber que resposta te dar. Finalmente, uma única palavra escapa-se-me dos lábios: “Porquê?” É uma pergunta simples na sua forma, mas a sua essência é bem mais complexa — Porque é que achas que sou insensível? Porque é que dizes isso assim, como se fosse uma acusação? Porque é que me magoas tão profundamente com as tuas palavras? Porque é que não me conheces o suficiente para saber que essa tua opinião me fere a alma?
“És insensível.” Repetes na mesma voz monocórdica com que o disseste da primeira vez. “Nunca choras, nunca te apaixonas, nunca te comoves nem emocionas. Desapegas-te das coisas e das pessoas, tornas-te insensível.” Outra aguilhoada certeira ao coração. Mas as minhas feições não deixam transparecer a dor que sinto, eu não deixo. Eu sou forte. Forte demais para o meu próprio bem, já me disseram. Forte, seja como for.
“Sai, por favor.” Peço-te, na voz mais calma que encontro, enquanto me sento devagar no sofá de pele escura. Lançando-me um último olhar, tu acedes ao meu pedido, saindo da minha casa e da minha vida para sempre. Sei que te voltarei a encontrar, nos dias seguintes, quem sabe nos anos vindouros… Talvez então eu já não seja insensível aos teus olhos; ou talvez seja. O que tu achas não mais será importante para mim e o que realmente importa tu nunca o saberás…
E quando uma lágrima amarga se liberta e rola pelo meu rosto no momento em que tu bates com a porta, eu limpo-a apressadamente, para evitar que outras sigam o seu rumo. Porque há mais vida depois de ti e eu nunca te deixarei ver-me chorar…

Talvez eu pareça insensível... mas isso não quer dizer que seja.

segunda-feira, abril 10

O telefonema

O telefone toca.
Ela — Estou?
Ele — Sim. Podes ouvir-me?
Ela — … Porquê? O que é que mudou?
Ele — Nada. Eu não quero que nada mude…
Ela — Não sejas ridículo! Todas aquelas palavras amargas que trocámos não foram nada? Todo este tempo… Se tu não sentiste, eu senti.
Ele — Claro que senti, mas…
Ela — Mas o quê? Porque é que me telefonaste? Para eu me lembrar que tu existes?
Ele — Já te tinhas… esquecido de mim?…
Silêncio.
Ele — Não respondes porquê?
Ela — … não…
Ele — Não o quê? Não vais responder?
Ela — Não, fogo! Ainda não me esqueci de ti! Há um ano que sonho contigo, mas não junto de ti. Há um ano que a minha vida não faz sentido. Há um ano que a minha vida mudou. Há um ano que te foste embora… e há um ano que eu espero por ti, por uma carta, um telefonema, ou o melhor, uma visita…
Ele — Ainda me amas?! Depois de tudo o que aconteceu, depois de tudo o que dissemos um ao outro…
Ela — Sim, eu ainda te amo. Ainda te espero, e vou esperar para sempre. Tenho uma pessoa que quero que tu conheças.
Ele — …Quem?
Ela — O Pedro. Tem um ano e está louco para te conhecer…
Ele — Pedro… Mas esse é… é o meu nome… … Tu foste… nós fomos…?
Ela — Sim, eu sou mãe, tu és pai e nós… somos pais…
Ele — Como é que ele é?
Ela — É lindo! Tem os teus olhos e a tua boca. É lindo como tu.
Lágrimas do outro lado.
Ele — Eu… eu fui tão estúpido… tão estúpido…
Mais lágrimas, de ambos.
Ela — Fomos os dois… mas nós éramos uns putos, não pensávamos em nada… Mas acredita, ser mãe ajudou-me a crescer… ajudou-me muito…
Ele — Achas… achas que eu darei… um bom pai?
Ela — Claro! No princípio é um pouco estranho… tens de acordar a meio da noite com o choro, tens de mudar fraldas… mas com o tempo habituas-te.
De repente, ouve-se um choro distante.
Ela — Tenho de ir…
Ele — Espera.
Ela — Não dá, ele precisa de mim…
De novo o silêncio, exceptuando pelo choro do filho que os unia.
Ele — Podes fazer-me um grande favor?
Ela — Sim, claro! O que é que queres?
Ele — Podes vir abrir-me a porta?